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Prêmio Zayed, Papa: a fraternidade é uma barreira ao ódio e à violência

Em Abu Dhabi, durante a cerimônia de entrega do prêmio, inspirado nos valores do Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado pelo Papa e o Grão Imame Al-Tayyeb, em 4 de fevereiro de 2019, numa mensagem de vídeo, Francisco elogia a caminhada “como irmãos” desses anos e espera que os premiados sejam “um incentivo para que outros tomem iniciativas que nasçam da colaboração fecunda entre pessoas de diferentes religiões a serviço de toda a humanidade”.
Alessandro Di Bussolo – Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos)
O Papa Francisco enviou uma mensagem de vídeo, nesta segunda-feira (05/02), aos vencedores do prêmio Zayed para a Fraternidade Humana 2024. O prêmio foi concedido no âmbito do Dia Internacional da Fraternidade Humana celebrado no domingo, 04 de fevereiro.
A cerimônia de entrega realizou-se na tarde desta segunda-feira, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, no mesmo Memorial do Fundador onde em 4 de fevereiro de 2019, junto com o Grão Imame de Al-Azhar, Al-Tayyeb, o Pontífice assinou o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da paz mundial e da convivência comum.
“Eu os saúdo com carinho e estima neste dia em que recordamos que exatamente cinco anos atrás, em Abu Dhabi, foi assinado o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da paz mundial e da convivência comum”, ressalta o Papa na videomensagem. A seguir, o Papa diz:

“Ao longo desses anos caminhamos como irmãos na consciência de que, respeitando as nossas diferentes culturas e tradições, devemos construir a fraternidade como barreira ao ódio, à violência e à injustiça.”

Na mensagem de vídeo, o Pontífice ressalta que “os homenageados com o “Prêmio Zayed para a Fraternidade Humana 2024″ são conhecidos por seu compromisso solidário com o progresso da humanidade e da promoção da convivência pacífica”.
O Papa agradeceu-lhes e espera que “seu exemplo seja um estímulo para que outros tomem iniciativas que nasçam da colaboração fecunda entre pessoas de diferentes religiões a serviço de toda a humanidade e no respeito da dignidade de cada pessoa, promovendo os valores propostos pelo Documento sobre a Fraternidade Humana”.
O líder da Universidade Egípcia, coração do islamismo sunita, que estava presente na cerimônia na capital dos Emirados Árabes Unidos, elogiou em seu discurso a dedicação constante do “irmão Francisco” em apoiar a Declaração Conjunta de Abu Dhabi e “seu compromisso contínuo e louvável de apoiar os pobres e os necessitados, os oprimidos e perseguidos e na promoção do espírito de fraternidade e paz entre todos”.
Al-Tayyeb: apelo para deter todas as guerras
O Grão Imame sublinhou que “o nosso mundo de hoje tem necessidade de reviver os princípios morais supremos contidos no Documento”, aos quais se acrescenta “o sério apelo para deter as guerras e os conflitos” no Oriente Médio, em particular “em Gaza, Palestina, Sudão, Mar Vermelho e outros lugares do mundo.” É lamentável, para Al-Tayyeb, que o quinto aniversário deste Documento histórico “coincide com os conflitos e guerras que o mundo vive hoje e que constituem também um desafio para a civilização contemporânea. Isto implica uma grande responsabilidade para todos nós, pela qual seremos chamados a responder diante de nosso Senhor no dia em que O encontrarmos”.
O Papa aos vencedores: continuem a semear esperança!
O Papa agradeceu aos três vencedores da quinta edição do Prêmio Zayed, a religiosa chilena Nelly León, o cirurgião cardíaco Magdi Yacoub do Egito, e as organizações islâmicas Nahdlatul Ulama e Muhammadiyah da Indonésia. “Gostaria de lhes dizer, como um desejo: continuem semeando esperança!” O Prêmio Zayed, agora no seu quinto ano, foi criado para destacar aqueles que contribuem para a promoção de um mundo mais pacífico, harmonioso e compassivo, e se inspira nos valores no contidos Documento sobre a Fraternidade Humana.

Encontro do Papa Francisco com os vencedores do Prêmio Zayed 2024 no Vaticano. Com eles o juiz Abdelsalam (à esquerda) e o cardeal Miguel Ángel Ayuso Guixot, à direita

Os encontros de Francisco e do Grão Imame com os premiados
Francisco quis se encontrar dez dias atrás, numa audiência privada, com os premiados, que o visitaram pessoalmente no Vaticano e puderam lhe contar pessoalmente sobre o trabalho que realizaram em suas vidas. Também naquela ocasião, o Pontífice lhes agradeceu pelo serviço prestado, encorajando-os a continuar perseverando em seu compromisso com os mais necessitados. Na mensagem de vídeo transmitida no Memorial do Fundador, em Abu Dhabi, o Grão Imame saudou o compatriota Magdi Yacoub, um cirurgião cardiotorácico, como “um exemplo de investimento do que Alá lhe deu, em termos de conhecimento e habilidades, para salvar as crianças de certos perigos e oferecer-lhes oportunidades para uma nova vida saudável”. Ele acrescentou, dirigindo-se ao médico de 88 anos: “O senhor sempre será um motivo de orgulho para todos os egípcios e árabes”.
O agradecimento de Al-Tayyeb aos vencedores
Sobre a irmã Nelly, Al-Tayyeb elogiou os esforços “em apoiar e abraçar as mulheres chilenas, especialmente as que estão na prisão, e em fornecer-lhes assistência para restaurar sua confiança, preservar seus direitos e sua dignidade, atender às suas necessidades e às de suas famílias e fornecer moradia para as mais pobres após sua libertação”. Por fim, as felicitações à associação Nahdlatul Ulama e às organizações Muhammadiyah, “da amada e querida Indonésia”, pelo prêmio recebido, “que coroa os esforços de suas organizações nos campos do trabalho humanitário, da construção da paz local, regional e global e do desenvolvimento da sociedade indonésia por meio do financiamento da construção de escolas e hospitais, a execução de projetos de caridade e o apoio aos pobres e necessitados”. E, por fim, o Grão Imame de Al-Azhar orou a Alá para que “aumente seus esforços conjuntos para o bem-estar dos pobres, necessitados e vulneráveis, para que possa continuar aliviando seu sofrimento e preservando sua dignidade”.
O compromisso dos Emirados e do júri do Prêmio
Ahmed Al-Tayyeb expressou sua gratidão à memória do xeique Zayed bin Nahyan, fundador dos Emirados Árabes Unidos, que dá nome ao Prêmio, o qual “reflete o compromisso incansável dos Emirados e sua abordagem constante para promover a cultura da fraternidade e da paz no mundo, incentivando indivíduos e instituições em todo o mundo a se comprometerem mais com um mundo onde o espírito de fraternidade e humanidade prevaleça”. Por fim, ele expressou sua gratidão aos membros do júri do Prêmio por selecionar “os projetos humanitários mais importantes que visam motivar os jovens e incentivá-los a difundir os princípios da fraternidade. Esses ganhadores do prêmio representam modelos inspiradores a serem seguidos por todos”.

A emoção da irmã Nelly Leon ao receber o Prêmio Zayed 2024

Irmã Nelly: mulheres que, se amadas, oferecem amor a seus filhos
Visivelmente emocionada e grata pelos olhos do júri do prêmio terem viajado mais de 14 mil quilômetros para ver seu trabalho numa prisão em Santiago do Chile, irmã Nelly León, em seu discurso na cerimônia, disse que escolheu se tornar uma irmã das mulheres privadas de liberdade para que “a sociedade possa vê-las e tratá-las fraternalmente”. Ela também se referiu ao seu relacionamento com as mulheres na prisão, com quem muitas vezes compartilha um amor maternal que elas nunca conheceram. “Sou testemunha do quanto elas desejam ser amadas, respeitadas e dignas, não muito diferente do que eu e todos nós desejamos nesta vida”, disse a presidente da Fundação Mujer Levántate. “Quando elas descobrem que são dignas de serem amadas, percebem que também podem oferecer a seus filhos o amor que lhes foi tirado quando crianças”.
Os agradecimentos dos outros ganhadores do prêmio
Yahya Cholil Staquf, presidente da Associação Nahdlatul Ulama da Indonésia, aproveitou a ocasião da cerimônia de entrega do Prêmio Zayed para “convidar as pessoas de boa vontade de todas as religiões e nações a se unirem a nós “, disse ele, “na construção de um movimento global para promover o surgimento de uma ordem mundial verdadeiramente justa e harmoniosa, baseada no respeito aos direitos iguais e à dignidade de todos os seres humanos”. Ao receber o prêmio, o cirurgião cardíaco egípcio Magdi Yacoub disse que “é ótimo que os jovens, graças ao trabalho da nossa fundação”, disse ele,  “possam realizar os sonhos de suas vidas e ter uma vida longa. Sem discriminação de raça, religião ou origem social”.

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O Papa: muitos conflitos abertos, não ceder à lógica das armas

Francisco divulgou uma carta por ocasião dos 80 anos do voto de Pio XII e da cidade de Roma a Maria Salus Populi Romani durante a fúria da II Guerra Mundial. O Pontífice pede que o aniversário seja uma oportunidade para “meditar em torno do terrível flagelo da guerra”. Olhando para a Ucrânia, Oriente Médio, Sudão e Mianmar, exorta a ouvir os “gritos de terror e de sofrimento” que questionam a consciência de todos e a “trabalhar pela paz na Europa e no mundo”.
Mariangela Jaguraba- Vatican News
O Papa Francisco enviou uma carta ao vice-gerente da Diocese de Roma, dom Baldassarre Reina, por ocasião dos 80 anos do voto de Pio XII e da cidade de Roma ao ícone de Nossa Senhora conhecido como “Salus Populi Romani” durante a II Guerra Mundial.
O Pontífice une-se espiritualmente a toda a comunidade diocesana que celebra pela primeira vez a memória litúrgica da Salus Populi Romani, e recorda o voto que o povo de Roma e seu Pastor, Papa Pio XII, fez a Nossa Senhora em 4 de junho de 1944 para implorar a salvação da cidade, quando o confronto direto entre o exército alemão e os aliados anglo-americanos estava prestes a acontecer”, escreve o Papa no texto.
“A devoção ao antigo ícone conservado na Basílica de Santa Maria Maior está viva há séculos no coração dos romanos, que recorriam a ele para fazer súplicas e invocações, especialmente durante pragas, desastres naturais e guerras”, escreve ainda Francisco. “Os eventos marcantes da vida religiosa e civil de Roma eram registrados em frente a essa imagem. Portanto, não é de surpreender que o povo romano desejou confiar-se mais uma vez a Maria Salus Populi Romani enquanto a Urbe vivia o pesadelo da devastação nazista”, ressalta ainda o Papa.

Pio XII com os cidadãos romanos após o bombardeio do bairro de São Lourenço

Não ceder à lógica das armas
De acordo com Francisco, “oitenta anos depois, a lembrança desse acontecimento tão cheio de significado quer ser uma ocasião para rezar por aqueles que perderam a vida na II Guerra Mundial e para fazer uma meditação renovada sobre o tremendo flagelo da guerra”.
Muitos conflitos em diferentes partes do mundo ainda estão abertos hoje. Penso em particular na martirizada Ucrânia, na Palestina e Israel, no Sudão e Mianmar, onde as armas ainda fazem barulho e mais sangue humano continua sendo derramado.

“Esses são dramas que afetam inúmeras vítimas inocentes, cujos gritos de terror e sofrimento questionam a consciência de todos: não podemos e não devemos ceder à lógica das armas!”

O apelo de Paulo VI à ONU
O Pontífice recorda que “vinte anos após o fim da II Guerra Mundial, em 1965, o Papa São Paulo VI, falando na ONU, perguntou: ‘Será que o mundo chegará a mudar a mentalidade particularista e bélica que até agora teceu grande parte de sua história?'” Segundo Francisco, “essa pergunta, que ainda aguarda uma resposta, estimula todos a trabalhar concretamente pela paz na Europa e em todo o mundo”.

“A paz é um dom de Deus que também deve encontrar hoje corações dispostos a acolhê-lo e trabalhar para serem construtores da reconciliação e testemunhas da esperança.”

Ser construtor de paz
Francisco espera “que as iniciativas promovidas para comemorar o voto popular à Mãe de Deus, nos quatro lugares que foram protagonistas daquele acontecimento, possam reavivar nos romanos a intenção de serem construtores de uma verdadeira paz em todos os lugares, relançando a fraternidade como condição essencial para recompor conflitos e hostilidade”. “Pode ser construtor de paz”, ressalta o Papa, “quem a possui dentro de si e, com coragem e mansidão, se compromete em criar vínculos, em estabelecer relações entre as pessoas, em apaziguar as tensões na família, no trabalho, na escola, entre os amigos”.
O Pontífice conclui a carta, pedindo a Nossa Senhora Medianeira para que “obtenha para toda a humanidade o dom da concórdia e da paz” e confia “todos os habitantes de Roma, especialmente os idosos, os doentes, as pessoas sozinhas e em dificuldade, à intercessão materna da Salus Populi Romani”.

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Indonésia. Ilha de Flores ainda é uma “terra prometida” de vocações

“Em junho e julho estão programadas várias ordenações diaconais entre os vários institutos missionários. No domingo, 2 de junho, 48 foram ordenados diáconos Verbitas, que serão seguidos por outros 8 diáconos Carmelitas no dia 7 de junho, e 27 interdiocesanos (Dioceses de Maumere, Ende, Ruteng, Larantuka e Denpasar) no domingo, 9 de junho. A esses se seguirão as ordenações de cinco diáconos Camilianos no próximo dia 14 de julho, na festa de nosso fundador, São Camilo de Lellis”, conta Pe. Galvani
Vatican News

 

Em 1924 os vigários e prefeitos apostólicos encontraram-se pela primeira vez, para definir uma orientação comum sobre diversas questões da vida da Igreja e sobre a relação com as …

“Nesta época de final de ano letivo, estamos obtendo bons resultados vocacionais. Nós, Camilianos, tentamos nos manter em forma tanto quanto possível com muitas pequenas coisas boas para fazer, não apenas no campo vocacional, mas também com nossas iniciativas sociais e de caridade.”
É o que conta à agência missionária Fides o padre Luigi Galvani, pioneiro na Diocese de Maumere, na Indonésia, onde os Missionários Camilianos estão presentes em três dioceses com 4 seminários, dois centros sociais onde coordenam um programa de nutrição para 160 crianças pobres, apoio à distância para cerca de 20 estudantes merecedores, um projeto de “casas especiais” para libertar os doentes mentais de situações de opressão e, por fim, um modesto projeto de produção de água mineral e do sorvete “São Camilo”.
Ordenações diaconais entre os vários institutos missionários
“Em junho e julho – explica ele – estão programadas várias ordenações diaconais entre os vários institutos missionários. No domingo, 2 de junho, 48 foram ordenados diáconos Verbitas, que serão seguidos por outros 8 diáconos Carmelitas no dia 7 de junho, e 27 interdiocesanos (Dioceses de Maumere, Ende, Ruteng, Larantuka e Denpasar) no domingo, 9 de junho. A esses se seguirão as ordenações de cinco diáconos Camilianos no próximo dia 14 de julho, na festa de nosso fundador, São Camilo de Lellis”.
A mais católica das 17.000 ilhas do arquipélago indonésio

Em algumas áreas do país, que o Papa visitará em setembro, membros do clero local e de ordens religiosas masculinas e femininas moram por alguns dias em famílias católicas, …

“Nos próximos meses, haverá também as profissões religiosas de numerosos noviços e noviças dos vários institutos masculinos e femininos presentes na Diocese de Maumere, que, no momento, atingiram o número de 62 comunidades religiosas”.
“Todos esses resultados vocacionais encorajadores – conclui o missionário – certamente recompensam o empenho dos vários promotores, mas também são um testemunho da fé e do espírito missionário de centenas e centenas de famílias na ilha de Flores, que continua sendo a mais católica das 17.000 ilhas do arquipélago indonésio. Talvez seja também por isso que Flores é chamada de “terra prometida” de vocações.
(com Fides)

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África Central, quando uma Porta Santa se abriu para o mundo

O Jubileu Extraordinário da Misericórdia, em 2015, foi aberto em um lugar sem precedentes, longe do coração cristão do mundo, a Basílica de São Pedro, mas dentro do coração do Papa Francisco, em Bangui. O cardeal Dieudonné Nzapalainga, então arcebispo da capital da África Central, revive aquele dia memorável e o significado benéfico que a visita do Pontífice produziu ao longo do tempo.
Maria Milvia Morciano e Jean Charles Putzolu – Vatican News
É tarde e a noite se prepara lentamente para chegar, tingindo o céu de rosa e dourado. A porta da Catedral de Notre-Dame em Bangui se abre, empurrada por duas mãos firmes. A figura de Francisco está de pé, vigorosa. Muitos anos se passaram desde aquele 29 de novembro de 2015, o primeiro dia do Advento e a data de início do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, que foi inaugurado, antecipadamente, em um lugar igualmente extraordinário, na capital da África Central. Pela primeira vez na história, a abertura da Porta Santa não se realiza na Basílica de São Pedro, no túmulo do Apóstolo, no centro do mundo cristão, mas em um lugar remoto, para muitos desconhecido.
Capital espiritual
A África Central é um dos países mais sangrentos e divididos do mundo. O Papa o escolheu justamente por esse motivo, para levar misericórdia e uma mensagem de paz a uma “terra que está sofrendo há vários anos com a guerra e o ódio, a incompreensão e a falta de paz. Mas nessa terra sofrida há também todos os países que estão passando através da cruz da guerra. Bangui se torna a capital espiritual da oração pela misericórdia do Pai. Todos nós pedimos paz, misericórdia, reconciliação, perdão, amor. Por Bangui, por toda a República Centro-Africana, por todo o mundo, pelos países que estão sofrendo com a guerra, pedimos paz!”, disse o Papa na praça da igreja, depois de sair de um papamóvel, desprovido de qualquer proteção contra possíveis perigos, onde o imã também concordou em se sentar.
Um gesto universal compreendido por todos
Uma tradição antiga é transferida para um país jovem. O significado de abrir a Porta Santa e cruzar o limiar está enraizado em um simbolismo ancestral que, em Bangui, se ramifica e dá novos frutos. Ele está revestido de futuro. O gesto do Papa Francisco foi revolucionário porque, em um lugar fechado, cheio de barreiras, ele abre uma porta para a esperança, convida as pessoas a entrarem para encontrar misericórdia e paz, para encontrar Cristo e serem transformadas. Ele traduz de forma cristã uma metáfora compreensível para todos, em qualquer lugar do mundo, de qualquer tradição, religião, experiência e história. Todos entendem que se trata de um rito de passagem fundamental e sagrado.
A linha de fronteira, o limes latim, ponto final, fechamento, é transformada em limen, limiar, abertura. Talvez não seja coincidência o fato de duas palavras opostas conterem a mesma raiz, mas é interessante lembrar o fato de que, na linguagem eclesiástica, a “visitatio ad limina apostolorum” é a visita dos peregrinos aos túmulos dos apóstolos Pedro e Paulo, que remonta aos primeiros séculos da Igreja, mais tarde estendida aos bispos. Tudo fala de Jubileu.
Portas Santas em toda parte
Naquele ano de Misericórdia, muitas Portas Santas foram abertas em todo o mundo, quase um sistema solar composto por milhares de estrelas brilhantes espalhadas pela Terra, mesmo nos lugares mais remotos. Foi uma grande oportunidade, um presente dado a todos, mesmo àqueles que, por vários motivos, não podiam se locomover e viajar. Foi um jubileu extraordinário que pôde ser vivenciado em todas as igrejas locais, permitindo que aqueles que quisessem vivenciar plenamente o evento, fazer a peregrinação e atravessar a Porta da Misericórdia em sua própria diocese.
Uma esperança que vem de Roma
O cardeal Dieudonné Nzapalainga, então arcebispo de Bangui, é um dos intérpretes nodais de seu país. Sua história é de fé e de uma árdua “luta pela paz”, lembrando o título de seu livro na versão italiana, publicado pela Livraria Editora Vaticana em 2022. O cardeal centro-africano compartilhou com a mídia vaticana, aos microfones de Jean Charles Putzolu, a memória daqueles dias e as consequências benéficas da visita do Papa à África Central.
Gostaria de levá-los de volta ao dia 29 de novembro de 2015, o primeiro domingo do Advento, quando o Papa Francisco abriu a Porta Santa do Jubileu da Misericórdia. Foi em Bangui, na República Centro-Africana, portanto, em seu país: uma tradição muito antiga chegando a um país jovem. Em sua opinião, qual foi o significado desse gesto para todos os centro-africanos?
É um gesto único na história não apenas da Igreja universal, mas também da nossa Igreja.
Porque nós, centro-africanos, diante da violência, do sofrimento e da morte, encontrando-nos vivendo em um estado de absurdo, sentimos a esperança que veio de Roma por meio do homem de Deus, o Papa, que veio para aplacar, para trazer paz, tranquilidade e perdão, para trazer reconciliação, convidando nós, centro-africanos, a abrir as portas de nossos corações, cheios de ódio, rancor e vingança, para que pudéssemos nos enfrentar. É por isso que ele mesmo disse para depormos nossas armas: “leve a justiça, leve o amor”. Acredito que seu gesto será sempre lembrado aqui na República Centro-Africana. Muçulmanos, protestantes, católicos, todos nós somos unânimes em dizer que sua chegada foi salutar.
E o Papa de fato chegou. Ela se lembrou dessa mensagem, desse chamado para depor as armas. Havia uma enorme tensão até quase dois dias antes de sua chegada a Bangui. Houve mais tensão desde então? Essa mensagem foi ouvida? A mensagem do Papa foi ouvida e atendida? As armas ficaram em silêncio?
Acho que a mensagem foi ouvida. Passamos seis meses desde a partida do Papa como se estivéssemos em um país normal, algo impensável até dois dias antes de sua chegada. Sua chegada aliviou a pressão. Vimos muçulmanos saindo de seus enclaves para se juntarem a seus irmãos e irmãs católicos no estádio, para participar da grande celebração. As pessoas iam e vinham. O Km 5 [marco 5] era considerado um local onde havia muitas armas e, portanto, não se podia entrar. Mas fui até lá com os cristãos para acompanhar o Papa, dizendo aos muçulmanos: “vamos caminhar juntos!”
O Papa veio de Roma para a República Centro-Africana, os cristãos de Bangui deixaram nossos bairros para ir ao encontro de nossos irmãos, caminhando pela paz. Bem, nós marchamos e continuamos a fazê-lo desde aquele dia. Um líder rebelde nos disse que deveríamos conversar sobre espiritualidade com os imãs. Os imãs organizaram uma grande reunião para pedir aos líderes rebeldes que depusessem suas armas e muita coisa mudou desde então. Isso também foi resultado da visita do Papa.
Os imãs realizaram um grande encontro para pedir aos líderes rebeldes que deponham as armas e isso mudou muito. Esse também foi o resultado da visita do Papa, que nos deu um empurrão, nos fez recomeçar e agora estamos vendo os resultados. Hoje as armas não circulam mais como antes.
Em sua opinião, quais foram os outros frutos desse evento?
Foram os encontros entre jovens muçulmanos e jovens cristãos. Encontros bastante regulares entre mulheres muçulmanas e mulheres cristãs, e entre nós, líderes. Há pouco tempo, em março, uma mesquita a 250 quilômetros daqui foi vandalizada. O imã, o pastor protestante e eu falamos ao coração de nossos fiéis para desarmá-los e convidá-los a cooperar, respeitar, valorizar e respeitar o local. Esse, em minha opinião, é o fruto dessa passagem. Agora também pedimos que a justiça seja feita. Isso significa que aqueles que perderam suas casas devem poder recuperá-las, o que significa que aqueles que moram na casa do vizinho há muito tempo devem ter a gentileza de sair. E nós, líderes religiosos, trabalhamos com o coração. Há alguns que saem para deixar a casa para os proprietários sem passar pelos tribunais ou pelo Estado. Portanto, acho que isso também é proveitoso. Agora os corações estão dispostos e podemos conversar, podemos imaginar um futuro comum.
Quando o senhor diz que eles saem de casa, é porque eles realmente a devolvem ao seu legítimo proprietário, certo?
Exatamente isso.
Em um nível mais pessoal, Vossa Eminência, quais são suas lembranças mais fortes e talvez mais vívidas daquele período?
A lembrança mais vívida é a de entrar no quilômetro 5 dois dias antes: era impossível atravessar o posto de controle. Eu estava lá. Vi com meus próprios olhos: o Papa escolheu ir em um veículo não blindado, mas em campo aberto. Todos sabiam que havia muitas armas no local. Francisco teve a coragem de ir até lá e vimos que o imã também concordou em ir no papamóvel. Essa é a imagem mais forte. Quando saí para ir ao estádio, vi muçulmanos saindo em massa, arriscando suas vidas. Foi sua fé que os levou a sair. Um imã nos disse: ‘O Papa não veio para vocês, cristãos, mas para nós, muçulmanos. Estávamos no enclave, estávamos na escravidão. Ele nos libertou!”
Eminência, uma última pergunta: o senhor se tornou inseparável do Imã… entre cristãos e muçulmanos e também com os protestantes. Vocês realizam iniciativas juntos quase diariamente. Esse é outro fruto. É claro que é o resultado de seu trabalho, mas também é o resultado da visita do Papa…
A visita do papa nos confortou, incentivou e apoiou nesse trabalho. E fomos nós três que pedimos a ele que viesse à República Centro-Africana. Acho que todos nós somos gratos a ele. Esse é o fruto de sua passagem.
O Jubileu de 2025. Como estão se preparando para ele?
O Jubileu de 2025 é um momento importante para a Igreja. Bem, já estão sendo criados grupos aqui para refletir, orar, reunir-se e também para ver como, localmente, viveremos esse momento. Este ano celebraremos 130 anos de evangelização na República Centro-Africana e, ao mesmo tempo, estaremos caminhando para 2025, que está logo ali, e estamos trabalhando em ambos. Portanto, acho que há muito entusiasmo. Eu estava com um grupo de jovens que se encontrava na igreja em massa e dissemos uns aos outros: este é um momento importante porque é um momento de graça, mas também é um momento complicado e elevado. Não podemos deixar passar esse momento favorável.

O cardeal Dieudonné Nzapalainga

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